O que é o Número de Graham e quem foi Benjamin Graham?
O Número de Graham é uma fórmula de avaliação conservadora proposta por Benjamin Graham (1894-1976), economista, professor da Columbia Business School e mentor de Warren Buffett, considerado o pai do investimento em valor. Foi descrita na obra 'The Intelligent Investor' (traduzida em Portugal como 'O Investidor Inteligente'), nos capítulos dedicados ao investidor defensivo. A fórmula é raiz quadrada de (22,5 × EPS × VCA) e representa o preço máximo que um investidor passivo deveria estar disposto a pagar por uma acção que cumpra os restantes critérios defensivos de Graham. O multiplicador 22,5 resulta da combinação de um PER máximo de 15 com um PBV máximo de 1,5 (15 × 1,5 = 22,5). Para os investidores particulares portugueses que operam no Euronext Lisbon através de intermediários financeiros registados na CMVM (Comissão do Mercado de Valores Mobiliários), serve como filtro inicial de triagem antes de uma análise fundamental aprofundada.
Como é que o Número de Graham se relaciona com o valor intrínseco?
O Número de Graham é um tecto de preço conservador calculado apenas a partir do EPS reportado e do valor contabilístico por acção (VCA), não constituindo uma estimativa completa do valor intrínseco. O valor intrínseco, tal como definido pelo Professor Aswath Damodaran na NYU Stern School of Business, é tipicamente obtido por modelos de fluxos de caixa descontados (DCF) que incorporam crescimento, taxa de desconto ajustada ao risco e valor terminal. O Número de Graham ignora completamente o crescimento futuro e age como um preço justo defensivo. Por essa razão, deve ser visto como um crivo prévio, não como uma valorização única e definitiva. Em Portugal, os relatórios de contas das empresas cotadas no PSI-20 publicados no portal de difusão da CMVM (cmvm.pt) fornecem os dados de EPS e VCA segundo as IFRS necessários para o cálculo.
Quando é que o Número de Graham falha como ferramenta de avaliação?
Tem um desempenho fraco em empresas com poucos activos tangíveis, como software, marcas de consumo, consultoria, biotecnologia ou farmacêutica. Nestes negócios, a maior parte do valor reside em activos intangíveis (marcas, patentes, capital humano, propriedade intelectual) que, segundo as IFRS adoptadas pela União Europeia (em particular a IAS 38), só são reconhecidos no balanço em condições muito restritas. O valor contabilístico subestima dessa forma o capital económico real, e a fórmula tende a sinalizar todos os bons negócios de crescimento como sobreavaliados ou a excluí-los do crivo. Para acções tecnológicas cotadas no Euronext, na NASDAQ ou em outras praças, é preferível complementar com modelos de DCF, múltiplos sectoriais e análise qualitativa do moat económico.
Como é que a margem de segurança se aplica ao Número de Graham?
O Número de Graham representa um tecto de preço, não um preço de compra. Graham defendia repetidamente em 'O Investidor Inteligente' que se deve comprar com pelo menos um terço (33%) abaixo do valor estimado. A maioria dos investidores em valor aplica um desconto adicional de 25% a 50% sobre o Número de Graham calculado antes de considerar uma aquisição. A margem de segurança cobre erros nas estimativas de EPS, de VCA e de juízo qualitativo, e protege ainda contra riscos macroeconómicos não modelados (subida da inflação registada pelo INE, alteração de políticas monetárias do BCE, choques cambiais ou perdas de qualidade do crédito). No contexto português, dada a menor liquidez de algumas acções do PSI-20 face às grandes praças, faz sentido exigir uma margem ainda mais generosa.
Que limites de PER e PBV estão implícitos na constante 22,5?
A constante 22,5 resulta directamente dos dois tectos que Graham impunha ao investidor defensivo: PER (price-to-earnings, em português rácio preço/resultado) não superior a 15 e PBV (price-to-book, em português rácio preço/valor contabilístico) não superior a 1,5. O produto dos dois é 22,5, pelo que uma acção transaccionada exactamente ao Número de Graham se situa sobre a fronteira de ambas as regras simultaneamente. Qualquer margem de segurança significativa empurra os múltiplos implícitos para baixo destes tectos. Em economias com taxas de juro muito baixas, como o período pós-2014 marcado pelas decisões de política monetária do Banco Central Europeu, alguns autores sugerem flexibilizar estes tectos, mas a versão clássica mantém-se como referência conservadora.
Porque é que a fórmula não funciona com EPS negativo ou nulo?
A raiz quadrada só devolve um número real quando tanto o EPS como o VCA são positivos. Uma empresa em prejuízo não tem um piso de resultados defensivo, que é justamente o tipo de negócio que Graham queria que o investidor defensivo evitasse. Para empresas cíclicas com resultados temporariamente negativos, pode usar-se um EPS médio normalizado de 5 a 10 anos. Para empresas em pré-rentabilidade (startups, biotecnologia em fase clínica), o Número de Graham não é aplicável e devem usar-se outros métodos como valor patrimonial tangível, valor de liquidação ou múltiplos de vendas. Os investidores que operam através de bancos comerciais ou correctoras supervisionadas pela CMVM devem confirmar nos prospectos e contas auditadas se os resultados negativos são pontuais ou estruturais.
O Número de Graham serve para o investidor defensivo ou para o investidor empreendedor?
Graham escreveu a fórmula especificamente para o investidor defensivo em 'O Investidor Inteligente' — o accionista passivo que pretende rendibilidades adequadas sem realizar análise aprofundada nem dedicar muito tempo ao acompanhamento das suas posições. O investidor empreendedor (também traduzido como 'agressivo' ou 'activo'), que dedica horas semanais a investigação fundamental, pode relaxar o tecto de 22,5 e recorrer a modelos mais ricos: a fórmula de crescimento de Graham (V = EPS × (8,5 + 2g)), análise DCF segundo a metodologia de Damodaran, ou análise comparativa de múltiplos por sector. Esta distinção é central na obra e deve orientar a escolha das ferramentas. No mercado português, a maioria dos pequenos investidores particulares enquadra-se no perfil defensivo descrito por Graham.