Em Portugal, qual é um bom rácio de liquidez geral para uma PME?
Para a PME portuguesa, considera-se geralmente saudável um rácio de liquidez geral entre 1,2 e 2,0. Em operações de financiamento, bancos como a Caixa Geral de Depósitos, o Millennium BCP e o Novo Banco usam frequentemente um mínimo de 1,2 como covenant, sendo 1,5 ou superior confortável. O valor de referência varia por setor: um retalhista com rotação rápida de inventário pode funcionar perto de 1,2, enquanto uma indústria transformadora costuma precisar de 1,5–2,0. Compare sempre com os benchmarks setoriais publicados pelo Banco de Portugal (Análises Setoriais das Sociedades Não Financeiras) e com a tendência histórica da própria empresa.
Qual a diferença entre rácio de liquidez geral e rácio de liquidez reduzida?
O rácio de liquidez reduzida (acid-test) retira os inventários ao ativo corrente antes de dividir pelo passivo corrente: (Ativo Corrente−Inventaˊrios)/Passivo Corrente. É mais conservador, porque o inventário pode ser difícil de converter rapidamente em caixa, sendo o indicador adequado para negócios sazonais, retalho e indústria. Em empresas com inventário reduzido — por exemplo, serviços profissionais ou SaaS — a liquidez geral e a reduzida ficam próximas. A diferença entre as duas revela frequentemente a história real da liquidez.
Como são apresentados o ativo corrente e o passivo corrente no SNC português?
Ao abrigo do Sistema de Normalização Contabilística (SNC), aprovado pelo Decreto-Lei n.º 158/2009 e desenvolvido pelas Normas Contabilísticas e de Relato Financeiro (NCRF), o balanço apresenta separadamente o ativo e o passivo correntes e não correntes. O ativo corrente integra inventários, ativos biológicos correntes, clientes, adiantamentos a fornecedores, Estado e outros entes públicos (saldos a receber), outras contas a receber, diferimentos, ativos financeiros detidos para negociação, outros ativos financeiros e caixa e depósitos bancários. O passivo corrente compreende fornecedores, adiantamentos de clientes, Estado e outros entes públicos, financiamentos obtidos correntes, outras contas a pagar e diferimentos passivos. Estas regras de classificação são alinhadas com a IAS 1 nas demonstrações financeiras consolidadas das sociedades cotadas e supervisionadas pela CMVM.
Onde encontro o balanço de uma empresa portuguesa?
As sociedades comerciais portuguesas estão obrigadas a entregar anualmente a Informação Empresarial Simplificada (IES), que inclui o depósito das contas anuais. A IES é submetida via portal das Finanças e o registo comercial fica acessível através do Portal da Justiça e do Portal da Empresa, podendo as certidões permanentes ser consultadas online. Para emitentes admitidos à negociação, o relatório e contas é divulgado no Sistema de Difusão de Informação da CMVM (cmvm.pt). Os subtotais ‘Total do ativo corrente’ e ‘Total do passivo corrente’ ficam no balanço, dentro do modelo SNC.
Que valores de liquidez geral pedem os bancos portugueses para PME?
Os bancos portugueses não publicam um patamar único, mas, na prática, para operações de financiamento PME — conta corrente caucionada, financiamento ao investimento, linhas de tesouraria — utilizam frequentemente um covenant mínimo de 1,2 sobre o rácio de liquidez geral, podendo subir para 1,5 em setores industriais. A Caixa Geral de Depósitos, o Millennium BCP, o Novo Banco e o Santander avaliam ainda outros indicadores: cobertura do serviço da dívida (DSCR), autonomia financeira e liquidez reduzida. Uma trajetória persistentemente descendente da liquidez geral é, por si só, motivo para uma conversa com o gestor de empresas, mesmo que o valor absoluto ainda esteja acima do covenant.
Como funciona a garantia mútua (SPGM) e como entra a liquidez geral na análise?
O sistema português de garantia mútua, operado pela SPGM e pelas sociedades de garantia mútua (Norgarante, Lisgarante, Garval e Agrogarante), permite que as PME obtenham financiamento com partilha de risco entre a banca e a sociedade de garantia. Em muitas linhas, o Banco Português de Fomento atua como contragarante, em articulação com o IAPMEI no enquadramento de PME e na atribuição do estatuto de PME (PME Líder, PME Excelência). O banco financiador instrui o processo e avalia a continuidade da empresa, incluindo a liquidez de curto prazo. Um rácio de liquidez geral em torno ou acima de 1,5, com liquidez reduzida saudável e fundo de maneio positivo, robustece a análise económico-financeira e a candidatura à operação.
E se o meu rácio de liquidez geral for inferior a 1,0?
Significa que o passivo corrente excede o ativo corrente — não consegue cumprir todas as obrigações até 12 meses apenas com os recursos de curto prazo. Não equivale necessariamente a insolvência (pode existir geração operacional de caixa ou linhas de crédito por utilizar), mas é um sinal de alerta. A banca trata rácios abaixo de 1,0 como sinal de covenant e desencadeia normalmente uma análise de fundo de maneio; junto da Autoridade Tributária (AT) e da Segurança Social, um plano prestacional para IVA, retenções IRS ou contribuições pode integrar um plano de recuperação.
O rácio de liquidez geral inclui passivos não correntes?
Não — apenas a parcela de financiamentos obtidos de médio e longo prazo que vence nos próximos 12 meses (parcela corrente de financiamentos não correntes) integra o passivo corrente. O remanescente fica registado em ‘Financiamentos obtidos’ não correntes e está fora do rácio. No SNC e nas NCRF, esta separação deve ser visível no balanço ou no anexo, para que um utilizador externo (banco, ROC, AT) identifique a parte corrente.
Com que frequência devo calcular este rácio?
Uma vez por período de reporte — mensal para gestão ativa, trimestral para reporte ao banco ou a investidores, anual no mínimo. Muitas PME portuguesas reportam mensalmente ao gestor de empresas a partir das demonstrações intercalares geradas pelo software de contabilidade ou validadas pelo contabilista certificado (CC); para emitentes cotados, aplica-se pelo menos a periodicidade semestral exigida pela CMVM. O indicador ganha sentido na tendência e na comparação setorial, pelo que vale mais construir uma série multi-período do que confiar numa leitura isolada.
O rácio de liquidez geral é útil para empresas de serviços sem inventário?
Sim. Para uma empresa de serviços — consultoria, advocacia, contabilidade, IT — a liquidez geral e a reduzida ficam muito próximas porque o inventário é praticamente nulo. O rácio mede sobretudo a relação entre caixa, clientes e passivo corrente, e é exatamente o que importa para a liquidez de uma empresa de serviços. Nestes setores, dê atenção redobrada à antiguidade de saldos de clientes — uma liquidez geral elevada com muitos saldos vencidos é enganadora.
Por que motivo duas empresas com o mesmo rácio podem ter liquidez diferente?
A composição é determinante. Os € 500 mil de ativo corrente de uma empresa podem ser 80% caixa; noutra, 60% pode estar em clientes antigos. O rácio é o mesmo, a capacidade real de pagamento é muito diferente. Por isso, conjugue sempre o indicador com a análise de antiguidade de saldos de clientes, a rotação de inventários e o ciclo de conversão de caixa — é o mesmo tipo de análise económico-financeira que o IAPMEI e o Banco de Portugal usam nos seus estudos.
Como melhorar o rácio de liquidez geral na prática?
Aumente o ativo corrente (acelere a cobrança de clientes via factoring, mantenha mais caixa, reduza inventário através de campanhas) ou diminua o passivo corrente (amortize financiamentos de curto prazo, negoceie prazos com fornecedores, converta curto prazo em médio e longo prazo). Reestruturar um financiamento de curto prazo num crédito ao investimento — eventualmente com garantia mútua da SPGM e enquadramento em linhas do Banco Português de Fomento articuladas pelo IAPMEI — é uma das medidas mais rápidas. Combine com gestão rigorosa de cobranças e níveis de inventário realistas para um efeito duradouro.