O que é o goodwill (trespasse) no balanço?
Goodwill é a diferença positiva entre o preço pago numa aquisição e o justo valor dos activos líquidos identificáveis adquiridos. Representa intangíveis que não podem ser mensurados em separado — reputação da marca, capital humano, sinergias esperadas, fidelização de clientes — e é registado no balanço da adquirente, dentro dos activos intangíveis, ao abrigo da IFRS 3 ou da NCRF 14 do SNC.
Como é que o goodwill é gerado?
O goodwill apenas surge através de uma aquisição contabilizada como concentração de actividades empresariais ao abrigo da IFRS 3 (cotadas e empresas que adoptam IFRS) ou da NCRF 14 (SNC). Se uma sociedade adquire um alvo por 1 000 milhões de euros e o justo valor dos activos líquidos identificáveis (após reconhecimento de intangíveis como patentes e listas de clientes) é de 700 milhões, os restantes 300 milhões são registados como goodwill. O goodwill gerado internamente não pode ser activado.
Qual é um bom rácio goodwill / activos?
Não existe um referencial universal. Como regra prática: abaixo de 15% é comum em sectores intensivos em capital, como utilities (EDP, REN) e indústrias transformadoras; 15% a 30% é típico em grupos diversificados com algum histórico de M&A; acima de 30% sinaliza uma estratégia centrada em aquisições. Software, farmacêuticas e marcas de grande consumo operam frequentemente acima de 40% sem que isso constitua, por si só, um sinal de alarme.
O que é uma perda por imparidade (impairment) do goodwill?
É uma perda não monetária reconhecida quando a quantia escriturada do goodwill excede a sua quantia recuperável. Sob IFRS, a IAS 36 compara a quantia recuperável da unidade geradora de caixa (UGC) — o maior entre o justo valor menos custos de venda e o valor de uso — com a quantia escriturada. Sob o SNC, a NCRF 12 (Imparidade de Activos) aplica lógica equivalente. A perda reduz o resultado e o capital próprio, mas não afecta a tesouraria nem, em regra, o lucro tributável em sede de IRC.
Em que difere o teste de imparidade na IAS 36 do tratamento na NCRF 14?
Sob IFRS (IAS 36), o goodwill não é amortizado, sendo sujeito a teste de imparidade pelo menos uma vez por ano (e sempre que haja indícios), ao nível da UGC; uma perda por imparidade do goodwill nunca pode ser revertida. Sob a NCRF 14 do SNC, o goodwill é amortizado em vida útil estimada (presumindo-se 10 anos quando não for possível fazer estimativa fiável), acrescido de teste de imparidade quando existirem indicadores de perda; a perda por imparidade do goodwill também não pode ser revertida, ainda que outras imparidades possam ser, sob condições.
O goodwill pode ser negativo?
O goodwill em si não figura no balanço como valor negativo, mas pode haver uma compra em condições vantajosas (bargain purchase) quando o justo valor dos activos líquidos identificáveis adquiridos excede o preço pago. Nesse caso, tanto a IFRS 3 como a NCRF 14 obrigam a adquirente a reconhecer a diferença como ganho na demonstração de resultados na data de aquisição, depois de revistas as mensurações ao justo valor.
Com que periodicidade se testa o goodwill quanto a imparidade?
Pelo menos anualmente, e sempre que ocorra um evento desencadeador — queda significativa da capitalização bolsista, perda de cliente-chave, alteração regulatória adversa ou deterioração sustentada dos resultados operacionais da unidade. Muitas sociedades efectuam o teste anual no quarto trimestre, para que a conclusão fique reflectida no Relatório e Contas auditado pelo ROC e aprovado em Assembleia Geral.
O goodwill é fiscalmente amortizável em Portugal?
Em regra, não. O artigo 45.º-A do Código do IRC limita ou exclui a dedutibilidade fiscal das amortizações do goodwill adquirido em concentrações de actividades empresariais, embora preveja, em algumas situações, dedução em prestações iguais ao longo de 20 anos. As perdas por imparidade contabilísticas do goodwill também não são, em princípio, dedutíveis em sede de IRC. Estas regras geram diferenças entre o valor contabilístico (IFRS ou SNC) e o valor fiscal, originando impostos diferidos reconhecidos nos termos da IAS 12 ou da NCRF 25. Consulte sempre as orientações vigentes da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) e o seu ROC ou TOC.
Em que difere o goodwill dos restantes activos intangíveis?
Os intangíveis identificáveis — patentes, marcas, tecnologia desenvolvida, listas de clientes — podem ser separados da entidade ou decorrem de direitos contratuais, sendo amortizados ao longo da vida útil, salvo se considerados de vida útil indefinida. O goodwill não é separável e não tem vida útil estimável com fiabilidade, razão pela qual, sob IFRS, permanece indefinidamente no balanço e é apenas testado quanto a imparidade. No SNC (NCRF 14), pelo contrário, o goodwill é amortizado em vida útil estimada (presumindo-se 10 anos).
Um rácio elevado de goodwill significa sempre que vem aí uma imparidade?
Não. Um rácio elevado aumenta o montante em risco se o desempenho desiludir, mas adquirentes bem geridos, com disciplina de preço nas operações e forte integração, podem manter saldos avultados de goodwill durante décadas sem imparidade. Atenção aos sinais de alerta: capitalização bolsista abaixo do capital próprio, deterioração das margens por segmento e linguagem do órgão de administração a sugerir revisões estratégicas. A CMVM publica regularmente relatórios sobre a qualidade da informação financeira das cotadas portuguesas, com destaque para o risco de imparidade em grupos com goodwill material.
Onde encontro o goodwill numa demonstração financeira portuguesa?
Surge como rubrica autónoma no balanço consolidado, normalmente integrada nos activos intangíveis, com divulgação obrigatória no Anexo (NCRF 6, NCRF 14 e IAS 36, conforme o referencial). O Anexo desagrega o goodwill por unidade geradora de caixa e apresenta a reconciliação dos saldos inicial e final, com adições por novas aquisições, diferenças cambiais e perdas por imparidade reconhecidas. Para cotadas no PSI-20 ou noutros índices da Euronext Lisbon, encontra esta informação no Relatório e Contas publicado no Sistema de Difusão de Informação da CMVM.
Qual a diferença entre goodwill e rácio goodwill / activos?
Goodwill é o montante absoluto, em euros, registado no balanço. O rácio goodwill / activos expressa esse montante em percentagem dos activos totais, permitindo comparar empresas de dimensões diferentes em base homogénea. Um saldo de 5 mil milhões de euros de goodwill significa coisas muito diferentes numa empresa com 20 mil milhões de balanço e numa cotada europeia com 200 mil milhões.
Como é que o goodwill afecta a rendibilidade do activo (ROA)?
O goodwill inflaciona o denominador da rendibilidade do activo sem gerar fluxo de caixa directo, pelo que as empresas mais aquisitivas tendem a apresentar ROA inferior aos peers de crescimento orgânico. Os analistas calculam frequentemente a rendibilidade do activo tangível — excluindo goodwill e outros intangíveis — como medida complementar do desempenho operacional. Em Portugal, este ajustamento é particularmente útil na comparação entre grupos cotados com diferentes níveis de actividade de M&A no PSI-20.