O que é o markup no retalho português?
Markup (em português, margem sobre custo) é o percentual que um comerciante acrescenta ao preço de custo para chegar ao preço de venda sem IVA. É o instrumento de preço mais utilizado em praticamente todas as lojas, restaurantes e lojas online em Portugal: desde uma loja de especialidades na Baixa de Lisboa até um pequeno restaurante no Porto ou um vendedor de dropshipping no Worten Marketplace. Ao contrário da margem bruta — que olha para o preço de venda — o markup calcula a diferença entre preço e custo dividida pelo custo.
Um exemplo: se compra uma t-shirt por 12 EUR ao seu fornecedor e aplica 100% de markup (chamado keystone pricing no jargão de retalho), o preço de venda sem IVA fica em 24 EUR. Ao acrescentar 23% de IVA, o preço no cartaz passa a 29,52 EUR. A Autoridade Tributária e a ASAE exigem que os preços ao consumidor sejam comunicados com IVA incluído — mas o cálculo do markup faz-se sempre em valores sem IVA.
Um markup demasiado baixo não cobre rendas, pessoal, segurança social, IRC ou a entrega do IVA ao Estado; um markup demasiado alto afasta os clientes para a Worten, a Action ou para lojas online estrangeiras. O IAPMEI recomenda às PME portuguesas que revejam periodicamente os percentuais de markup face às médias setoriais e à própria estrutura de custos.
Markup versus margem: a confusão que custa caro ao comerciante
Os termos markup e margem são usados como sinónimos em muitas conversas de balcão, mas matematicamente não são iguais. Um markup de 50% nunca produz uma margem de 50% — é um dos erros de cálculo mais caros que se pode cometer numa tabela de preços.
🏷️ Markup (margem sobre custo)
A base é o CUSTO. Um markup de 50% sobre 100 EUR de custo = 150 EUR de preço de venda (50 EUR de lucro, sem IVA).
📊 Margem bruta (sobre venda)
A base é o PREÇO DE VENDA. Essa mesma venda de 150 EUR tem uma margem de 33,3% (50 EUR de lucro em 150 EUR de receita).
⚠️ Confusão clássica
Um markup de 50% NÃO é uma margem de 50%. No SNC (Sistema de Normalização Contabilística) e nas demonstrações financeiras é a margem bruta que se reporta, não o markup.
📐 Conversão
Margem = Markup / (1 + Markup). Exemplo: 0,50 / 1,50 = 33,3%. A calculadora mostra os dois valores lado a lado.
Markup típico por setor em Portugal
As médias setoriais variam muito devido a diferenças de risco de stock, rotação, custos com pessoal e pressão concorrencial. Os dados do INE sobre comércio a retalho e restauração mostram, por exemplo, que os supermercados trabalham com markups de 10-25%, enquanto a restauração aplica frequentemente 300-500% sobre bebidas. A tabela abaixo é uma referência — confronte sempre com a sua própria demonstração de resultados.
| Setor/Produto | Markup típico | Margem resultante | Observações |
| Supermercados (alimentar) | 10-25% | 9-20% | Volume alto, margem baixa |
| Moda e vestuário | 100-300% | 50-75% | Keystone pricing é regra |
| Ourivesarias e joalharia | 100-400% | 50-80% | Posicionamento de luxo |
| Eletrónica e eletrodomésticos | 20-40% | 17-29% | Forte comparação de preços |
| Mobiliário e decoração | 150-300% | 60-75% | Showroom + logística |
| Restauração (bebidas) | 300-500% | 75-83% | Rendas Lisboa/Porto |
| Restauração (comida) | 150-250% | 60-71% | IVA 13% em pratos |
| Lojas online (média) | 40-100% | 29-50% | Concorrência via comparadores |
| Perfumaria e cosmética | 200-400% | 67-80% | Prémio de marca |
Estratégias de preço que os comerciantes portugueses usam
🎯 Keystone pricing
Duplicar o custo (markup de 100%). Clássico no retalho de moda em Portugal; resulta numa margem bruta limpa de 50%, suficiente para cobrir pessoal, rendas e contribuições para a Segurança Social.
📈 Preço por categoria
Markup mais baixo em produtos chamariz (marcas líderes, produtos de grande rotação) e markup mais alto em especialidades ou marcas próprias. O Continente, o Pingo Doce e o Worten são exemplos desta abordagem mista.
🏆 Posicionamento premium
Markups elevados (200-400%) para artigos de luxo, artesanato ou edição limitada. Funciona em design, joalharia e marcas nicho desde que a história e o serviço justifiquem o preço.
⚡ Preço competitivo no e-commerce
Equiparar ou ficar ligeiramente abaixo do KuantoKusta, do Amazon.es ou do Worten Marketplace. Calcule primeiro o markup-piso (custo + transporte + devoluções + IVA) para não vender abaixo do custo.
IVA e markup: como manter os cálculos limpos
O IVA é separado do cálculo do markup, mas tem de ser comunicado corretamente. Segundo a Autoridade Tributária, há em Portugal continental três taxas que os comerciantes combinam com o markup: 23% (taxa normal, aplicável à maioria dos bens e serviços), 13% (taxa intermédia, aplicável a vinhos comuns e a refeições e bebidas em restauração, com algumas exclusões) e 6% (taxa reduzida, aplicável a produtos alimentares essenciais, livros e medicamentos). Nas Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores as taxas são diferentes (22%/12%/5% e 16%/9%/4%, respetivamente).
A ordem de cálculo é sempre a mesma: preço de custo sem IVA + markup = preço de venda sem IVA; depois × (1 + taxa de IVA) = preço ao público com IVA. O IVA que cobra não é receita, é um valor que entrega ao Estado através da declaração periódica de IVA. Nas transmissões intracomunitárias B2B aplica-se o regime de reverse charge (IVA autoliquidado, taxa 0% na fatura).
A AICEP e o IAPMEI lembram que os comerciantes que vendem ao consumidor final são obrigados a exibir preços com IVA incluído, enquanto as lojas online B2B podem escolher entre apresentar com ou sem IVA (desde que claramente identificado). Para a sua estratégia de markup, nada muda: a margem constrói-se sempre sem IVA.
Markup na restauração e no e-commerce: dois extremos
A restauração e o e-commerce são os dois setores em Portugal onde a disciplina de markup faz mais diferença entre sobreviver e fechar portas. Na restauração, a norma é trabalhar comida com 65-75% de margem (markup 185-300%) e bebidas com 75-83% de margem (markup 300-500%), porque os custos com pessoal e rendas em zonas como o Chiado, o Príncipe Real ou a Baixa do Porto pesam fortemente. Os dados do INE sobre os resultados de exploração no setor da restauração mostram como as margens líquidas continuam estreitas apesar dos elevados markups brutos.
No e-commerce a história é outra. As lojas online concorrem de forma transparente em comparadores de preços e os custos de envio e devoluções facilmente consomem 10-20% do valor da encomenda. O IAPMEI e a ACEPI (Associação da Economia Digital) aconselham os novos comerciantes online a construir o markup-piso a partir do verdadeiro landed cost: preço de compra + direitos aduaneiros + transporte + fulfilment + devoluções estimadas. Sem essa decomposição, um markup de 40% parece generoso mas, depois dos custos, gera prejuízo.